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CANSADA OU SEM RENDIMENTO? A RELAÇÃO ENTRE SONO, HORMÔNIOS E ALIMENTAÇÃO NO ESPORTE

  • Dra. Tatiana Lehnen
  • 29 de abr.
  • 7 min de leitura
CANSADA OU SEM RENDIMENTO? A RELAÇÃO ENTRE SONO, HORMÔNIOS E ALIMENTAÇÃO NO ESPORTE

Se você treina, tenta se alimentar melhor, quer ter mais energia, mais força, mais resultado, mas vive cansada, sem rendimento e com a sensação de que o corpo não responde como antes, eu quero te dizer uma coisa importante: 


Muitas vezes o problema não é falta de esforço. O problema é que sono, hormônios e alimentação estão desalinhados, e isso pesa ainda mais na perimenopausa e na menopausa. Distúrbios do sono são muito comuns nessa fase, com mais despertares noturnos e pior qualidade do descanso, e isso pode impactar energia, recuperação e performance (Sleep disturbance associated with the menopause, 2024).


O que vejo todos os dias no consultório como nutricionista


Diariamente, eu vejo no consultório alguns erros bem comuns que minhas pacientes cometem, querendo olhar só para comida ou só para treino, como se o rendimento dependesse apenas de “comer certo” ou “treinar pesado”. Na realidade, não funciona assim. A mulher dorme mal, acorda quebrada, tenta compensar com café, treina sem energia, come de forma bagunçada ao longo do dia, sente mais fome à noite e conclui que “o metabolismo travou”. Só que, muitas vezes, o corpo está apenas tentando sobreviver a uma rotina que não permite recuperação. Sono adequado ajuda na recuperação do exercício, na função cognitiva e no desempenho físico (American College of Sports Medicine).


Outra cena muito comum: a paciente acha que, por estar treinando, o cansaço é normal. Não é. Cansaço pontual existe. Mas viver sem rendimento, sem força, sem vontade e sem progresso é sinal de que algo precisa ser ajustado. Em mulheres na transição menopausal, ondas de calor, suor noturno, despertares e alterações de humor podem piorar o sono e, por consequência, a disposição para treinar e manter a alimentação organizada (Sleep disturbance associated with the menopause, 2024).


Por que o sono mexe tanto com o rendimento esportivo?


Sono é recuperação, não pausa. Muita gente trata o sono como se fosse o tempo em que “nada acontece”. É o contrário. Durante o sono, o corpo faz parte importante do trabalho de recuperação física e mental. Quando você dorme mal, não é só o humor que piora. Sua capacidade de reagir, se concentrar, tomar decisão, sustentar esforço e recuperar do treino também pode cair. A perda de sono reduz desempenho esportivo, especialmente quando há privação total de uma noite ou mais, e que aumentar o sono pode melhorar desempenho físico e cognitivo. 


No esporte, isso aparece de vários jeitos: mais sensação de esforço, mais dificuldade para manter intensidade, pior coordenação, mais lentidão mental e menor consistência. Em um português claro: você até vai ao treino, mas não entrega o que poderia. 


Onde entram os hormônios nessa história?


A perimenopausa e a menopausa bagunçam o sono. Na perimenopausa e na menopausa, a queda hormonal e a instabilidade hormonal podem se associar a mais despertares noturnos, aumento do tempo acordada após pegar no sono e pior percepção de qualidade do sono. Além disso, sintomas como calorões e suor noturno frequentemente atrapalham ainda mais.


Isso significa que muitas mulheres 40+ não estão “desmotivadas” para treinar. Elas estão exaustas. E um corpo exausto responde pior ao treino, à alimentação e à rotina. Mesmo mulheres fisicamente ativas e atletas podem ter sintomas menopausais relevantes, influenciando na prática esportiva (Frequency and perceived influence of menopausal symptoms on training and performance in female endurance athletes, 2025).


Hormônio bagunçado, fome bagunçada


Quando o sono piora, a alimentação raramente fica intacta. Dormir mal tende a aumentar a busca por praticidade, açúcar, café em excesso e escolhas mais impulsivas. Além disso, baixa energia disponível e rotina alimentar inadequada são temas importantes na saúde e no rendimento esportivo feminino. Em outras palavras: a mulher cansada normalmente não falha por preguiça ou falta de comprometimento. Ela falha porque está tentando ter disciplina com um cérebro e um corpo esgotados. 


Qual é a relação entre alimentação e sono?


Alimentação ruim pode piorar o sono. E sono ruim pode piorar a alimentação.


Essa relação é uma via de mão dupla. Uma dieta nutritiva tende a apoiar melhor recuperação e sono, enquanto alimentação muito desorganizada, álcool, excesso de cafeína, refeições pesadas muito tarde ou baixa ingestão energética pode atrapalhar. Ao mesmo tempo, dormir mal afeta fome, energia e organização alimentar no dia seguinte. E algumas intervenções alimentares podem melhorar aspectos do sono.


Para quem pratica esporte, isso importa ainda mais. No treino, o corpo precisa de combustível. Cortar demais carboidrato, passar muitas horas sem comer ou treinar mal alimentada pode derrubar rendimento e piorar recuperação. Em mulheres ativas, equilíbrio energético e ingestão adequada de nutrientes são pontos centrais para saúde e performance. 


Os sinais de que o problema pode não ser só o treino


Alguns sinais fazem sentido dentro do quadro de sono ruim, sintomas menopausais e recuperação insuficiente. E você deve investigar mais de perto quando perceber:


  • queda de rendimento sem explicação clara;

  • cansaço constante, mesmo treinando “certo”;

  • mais fome ou mais vontade de doce à noite;

  • dificuldade para recuperar entre treinos;

  • sono picado, suor noturno ou insônia;

  • irritação, desânimo e sensação de corpo pesado;

  • treino que antes rendia e agora parece um castigo.


Como melhorar energia e rendimento cuidando de sono, hormônios e alimentação


1. Trate o sono como parte do treino


Esse é o primeiro ajuste. Sono não é prêmio depois que sobra tempo. Sono é parte da estratégia esportiva. Adultos em geral precisam de cerca de 7 a 9 horas por noite, e atletas podem precisar de atenção ainda maior à rotina de descanso e recuperação. Se você dorme 5 ou 6 horas, acorda várias vezes e quer render como se estivesse recuperada, está cobrando alta performance de um corpo rodando no vermelho.


2. Pare de usar cafeína para maquiar exaustão


Café pode ajudar em alguns contextos. Mas usar cafeína o dia inteiro para compensar sono ruim só camufla, é como varrer a sujeira para baixo do tapete. Isso pode piorar ainda mais o sono da noite seguinte e alimentar o ciclo de cansaço. Estratégias de higiene do sono na menopausa costumam incluir evitar cafeína tarde do dia e manter horários mais regulares.


3. Não tente treinar forte comendo pouco


Esse erro é clássico. A mulher quer secar, melhora a dieta “na marra”, corta carboidrato, passa muitas horas sem comer e depois não entende por que o treino não rende. O corpo precisa de energia para performar, recuperar e preservar massa magra. No contexto do esporte feminino, baixa disponibilidade energética é um problema conhecido e pode comprometer saúde e desempenho.


4. Priorize proteína ao longo do dia


Proteína ajuda na recuperação muscular, na saciedade e na manutenção de massa magra, algo ainda mais importante para mulheres 40+ na perimenopausa e menopausa. Quando o dia é corrido, muita mulher deixa proteína para a noite e passa o resto do dia sobrevivendo de café, fruta e belisco. Isso costuma piorar energia, fome e recuperação. A literatura sobre nutrição feminina e menopausa reforça a importância de preservar massa muscular e sustentar ingestão proteica adequada nessa fase. 


5. Organize o jantar e a rotina noturna


Quem quer dormir melhor precisa olhar para a noite inteira, não só para o travesseiro. Jantar muito pesado, beber álcool para “relaxar”, treinar muito tarde quando isso agita demais e usar tela até cair de sono podem piorar a qualidade do descanso. Medidas de higiene do sono são frequentemente recomendadas para mulheres na menopausa com queixa de insônia.


6. Use o treino a seu favor, não contra você


Exercício regular pode ajudar o sono e a saúde na menopausa, mas intensidade, horário e recuperação importam. Uma meta-análise recente encontrou benefício do exercício aeróbico de baixa e moderada intensidade para distúrbios do sono em mulheres menopausadas, embora o efeito dependa de fatores do treinamento (The effect of aerobic exercise on sleep disorder in menopausal women: a systematic review and meta-analyses, 2024). Isso significa que, quando você já está exausta, talvez o corpo responda melhor a um planejamento mais inteligente do que a mais porrada.


PASSO A PASSO PRÁTICO PARA MELHORAR SONO, ENERGIA E RENDIMENTO

Passo 1: observe seu padrão por 7 dias

Anote horário de dormir, despertares, energia ao acordar, treino, fome e alimentação. Você precisa enxergar o padrão antes de corrigir.


Passo 2: coloque proteína já no café da manhã

Ovos, iogurte natural proteico, queijo, shake bem orientado ou outra fonte que caiba na sua rotina.


Passo 3: não treine em jejum se isso derruba sua energia

Nem toda mulher responde bem a essa estratégia, especialmente quando já está cansada ou com sono ruim.


Passo 4: evite longos períodos sem comer

Isso costuma piorar fome no fim do dia e bagunçar o pós-treino.


Passo 5: reduza cafeína no fim da tarde e à noite

Se você quer dormir melhor, esse ponto precisa entrar no jogo.


Passo 6: ajuste o horário e a carga do treino

Se o treino noturno te deixa elétrica, vale rever horário, intensidade ou tipo de sessão.


Passo 7: cuide da temperatura e do ambiente do quarto

Para mulheres com calorões e suor noturno, isso pode fazer diferença real na qualidade do sono.


Passo 8: acompanhe mais do que peso

Energia, força, recuperação, sono, humor e rendimento contam tanto quanto a balança.


OS ERROS MAIS COMUNS QUE MINHAS PACIENTES COMETEM

Erro 1: achar que cansaço é normal porque “a idade chegou”

Não. Envelhecer não exige resignação automática. Exige estratégia melhor.


Erro 2: tentar compensar sono ruim com mais café ou energéticos e mais força de vontade

Isso empurra o problema para frente, mas não resolve.


Erro 3: cortar comida quando o rendimento cai

Sem combustível, o corpo não rende e não recupera direito. 


Erro 4: fazer treino intenso demais para um corpo mal recuperado

Mais estímulo sem recuperação suficiente pode piorar fadiga e constância. 


Erro 5: ignorar os sintomas da perimenopausa e menopausa

Insônia, calorões, suor noturno, irritabilidade e fadiga não são detalhes. Eles mexem com a vida e com o esporte. 


Erro 6: querer resolver tudo só com dieta

Comida ajuda muito, mas não conserta sozinha um corpo privado de sono.


Conclusão

Se você está cansada, sem rendimento e sentindo que seu corpo não responde ao treino como antes, não reduza tudo a “falta de disciplina ou preguiça”. Na perimenopausa e na menopausa, sono, hormônios e alimentação formam um triângulo que influencia diretamente energia, recuperação e performance. Quando o sono piora, o treino pesa mais. Quando a alimentação desorganiza, a recuperação cai. Quando os hormônios mudam, o corpo pede outra estratégia.


A boa notícia é que isso pode melhorar muito quando você para de lutar contra o corpo e começa a trabalhar com ele: sono tratado como prioridade, alimentação que sustenta o treino, proteína adequada, carga de exercício mais ajustada e olhar clínico para os sintomas da menopausa.


E se você está na perimenopausa ou menopausa, treina, mas vive cansada, sem recuperação e sem rendimento, uma consulta individual pode te ajudar a entender o que está te sabotando na prática e a montar uma estratégia alimentar e de rotina mais inteligente para o seu corpo de hoje.


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Tatiana Lehnen Nutricionista

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